Escritos Sem Rótulos
Por Elis Franco

Publicada em 08 de Janeiro de 2018 ás 21:27:15

A segunda lição sobre o amor

 
 
 
 
“Mas, se o viço do amor perder o brilho,
não sou platônico: te deixo e pronto.”
 
Luís Antonio Cajazeiras Ramos
 
“Eu pensando em ter você
Pelo tempo que durar”
 
Adriana Calcanhoto e Marisa Monte
 
 
 
 
Em 2015, escrevi um texto cujo título é “A primeira lição sobre o amor”, na tentativa de registrar um diálogo que tive com minha filha de cinco anos, quando esta me perguntou se poderia ficar para sempre com um bichinho chamado “soldadinho”. Resumindo, numa conversa bem leve, mostrei para ela que poderia ficar, mas não deveria aprisioná-lo, pois o para sempre deveria durar até o momento em que ele desejasse, ou seja, seria infinito enquanto durasse.
 
Naquele momento, estava eu tentando ensinar-lhe sobre este sentimento tão ambíguo que é o amor, julgando-me compreendê-lo bem, visto que este foi o tema de minha dissertação de mestrado. Na verdade, ao ensiná-la, era a mim que ensinava; eu precisava acreditar no que dizia. Acreditar eu até acreditava e acredito, porém, o mais difícil é permitir que alguém especial, cuja presença significa muito,  parta de nossas vidas.
 
Eu já li e leio sobre o amor, defendo, inclusive, a desconstrução do amor romântico, da ideia de que há uma metade da laranja nossa perdida pelo universo, como quis Platão ao narrar o mito do andrógino, e que apenas ao lado dela seremos eternamente felizes. Certa vez, ao conversar com um colega sobre esse tema, cheguei a afirmar que somos capazes de amar duas pessoas ao mesmo tempo, por razões diferentes, sem desejar perder nenhuma delas, como na letra interpretada por Marisa Monte, “Amar alguém e outro alguém também/ É coisa que acontece sem razão”. Ele, porém, disse-me que era impossível, pois caso as duas estivessem afogando-se, seria necessário decidir salvar apenas uma e, claro, seria salva a que fosse mais amada.
 
Aquela reflexão desestabilizou minhas certezas. Será que não há como amar duas pessoas ao mesmo tempo? Ou melhor, será que  não há como amar, com a mesma intensidade, duas pessoas? Sei apenas o quanto não é fácil definir esse sentimento... não há mesmo como defini-lo sem limitá-lo. Contudo, tentei, outro dia, expressar, por meio de versos,  o que seria o amor : “Amor é repousar a cabeça/pensando na eternidade:/(esse sonho infantil)./É escolher permanecer/por gratidão, tesão, ou/ − quem sabe – sentimento./ Ou por tudo isso reunido, /ou por nada disso: amar é/insondável profundidade.”
 
Em matéria de amor, cada pessoa tem sua história, não há receita. Para alguns, o amor malsucedido é devastador, deixa marcas difíceis de superar. Para outros, porém, “Se a madrugada hesita num desmaio,/ um novo amor convido para a dança”, como cantam os versos do poeta Cajazeiras Ramos. Penso que, qualquer que seja a definição para o sentimento que invade e aproxima dois seres, é imperioso vivê-lo intensamente, não permitindo que os vestígios de relacionamentos anteriores assombrem o momento presente.
 
Talvez, a melhor definição para o amor seja “o indefinido”. De nada adianta querer compreender as suas “sem” razões de existir. O melhor, de fato, é aprendermos a nadar, a enfrentarmos as ondas agitadas do mar do amor, pois nunca se sabe se seremos a pessoa escolhida para ser salva no momento das intempéries.
 
Que todo amor seja amor apesar de... Que todo amor seja amor para além de... Que todo amor seja apenas amor, enquanto for permitido ser. E caso algo dê errado pelo caminho, sentir o baque é natural, sofrer aquele aperto no coração também. Mas, depois, ouça Marisa cantando “Quero que você seja feliz/ Hei de ser feliz também”, ou outro estilo desejado. Afinal, esta história de alma gêmea e tampa da panela já está meio desacreditada, não é?
 
Feira de Santana, 07 de janeiro de 2018
Um dia como outro qualquer, após ouvir uma história de amor muito complicada.
 
Elis Franco é graduada em Letras Vernáculas, Especialista em Estudos Literários e Mestra em Literatura e Diversidade Cultural, todas as formações pela Universidade Estadual de Feira de Santana -UEFS. Conheça seu blogspot.

Por Elis Franco

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Publicada em 24 de Dezembro de 2017 ás 14:20:10

Se todos os dias fossem natal

 
Que o natal é uma festa encantadora, mesmo para aqueles que não são cristãos, para mim não restam dúvidas. Cidades iluminadas, um espírito pacificador, aquela vontade de reunir-se com parentes e amigos, aquele desejo de confraternizar e trocar presentes. Penso que é uma bela festividade, sobretudo pelo fato de algumas pessoas exercitarem ainda mais a bondade praticada ao longo do ano; outras tentam, pelo menos tentam, ser mais solidárias, fazendo, ainda que por um breve momento, resplandecer um mundo de fraternidade tão almejado.
 
Eu, de verdade, queria muito que o ano inteiro fosse natal, pois, pelo menos nesse período, boa parte da humanidade consegue fingir que é boa, fingir um desejo de reconciliar-se com a família, com o vizinho chato. Acho que as musiquinhas instrumentais nos acalmam, tranquilizam-nos. Olhar a decoração natalina enche-nos de um encantamento impossível de explicar. Porém, nem todos os dias são natalinos, depois do dia 25 lá vamos nós esquecermos o voto de conciliação, lá vamos nós agirmos como se fôssemos o coração do mundo.
 
Compreender o natal como a festa da chegada de Cristo, luz do mundo para os que nele creem, pode nos ajudar a superar uma avalanche mercadológica que nos impulsiona a comprar, a gastar, a fazer tudo, mas não a vivenciar plenamente a simbologia do encontro entre aquele que pregou a simplicidade e uma legião de homens e mulheres perdidos na escuridão do desejo de ser o centro do universo, o mar para onde as águas dos rios devem, obrigatoriamente, fluir.
 
É sempre muito fácil trocar presentes, difícil é fazer-se presença. É muito fácil montar a ceia, deliciar-se com as iguarias, difícil é comover-se com quem não tem a mínima condição de fazer a mesma coisa. É muito fácil estar entre os seus na noite tão esperada, difícil é estar ao lado do outro quando ele mais precisa. É muito fácil perdoar por um dia, difícil é compreender as fragilidades do outro durante todo o ano. É muito fácil escrever este texto, difícil será tornar fácil, para mim, tudo que citei como dificuldade.
 
Oxalá nasça em nós, diariamente, o desejo dos afagos, dos encontros, da compreensão. Talvez, assim, após desmontarmos a árvore e o presépio, após uma celebração regada a saborosos alimentos e bebidas, possamos preservar o sabor da vivência e nos descentrarmos um pouco, pois o natal pode ser todos os dias, basta que deixemos brilhar em nós a luz da empatia e da gratidão. Para além do papai noel, da ceia e da decoração, há a esperança em dias melhores, no entanto, é preciso que cada um comece a construí-lo, cotidianamente, e não apenas quando o natal se aproximar.

 

Elis Franco é graduada em Letras Vernáculas, Especialista em Estudos Literários e Mestra em Literatura e Diversidade Cultural, todas as formações pela Universidade Estadual de Feira de Santana -UEFS. Conheça seu blogspot.

Por Elis Franco

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Publicada em 18 de Outubro de 2017 ás 11:31:57

Perdas e ganhos

 A vida, como um trem em contínua viagem, às vezes exige de nós que desçamos do vagão para, lá adiante, percorrermos um novo caminho. As partidas geralmente deixam uma pontinha de dor, mas nem sempre elas são motivo de lamentação, sobretudo quando temos consciência de que vivemos o suficiente aquilo que estamos abandonando definitiva ou temporariamente.
 
         Partir não é o problema maior. O que potencializa a dor da partida é quando, por algum motivo, não queremos ir, quando desejamos permanecer, no entanto, é inevitável prosseguir, visto não cabermos mais no vagão onde estamos. Viver passa a ser então um dilema: ficar e sentir-se sufocado ou partir e sentir o vazio da não presença? Não é fácil decidir, todavia, é preciso correr o risco da decisão equivocada.
 
         Digo risco, pois, apesar de todas as possíveis análises realizadas, nada nos garante um futuro melhor do que o presente que abandonamos ou, por outras tantas razões, decidimos não abandonar. E isso se dá em diferentes esferas da nossa vida: é aquela profissão que já não nos preenche, ou preenche, mas não remunera bem; é aquele ambiente de trabalho tão sonhado, porém, sem nos fazer sentir a potência nossa enquanto profissional e, talvez, a pior partida: deixar para trás alguém a quem supomos amar, mas que não há mais como conciliar o amor e vida compartilhada.
 
         Esta viagem que é a vida, de fato, não é tarefa a se cumprir sem uma dose de medo diante das incertezas. O grande Guimarães Rosa acertou ao dizer que “Viver é muito perigoso”. Há perigo em ficar, há perigo em partir. Contudo, mais perigoso é deixar o medo nos paralizar, nos tirar o brilho dos olhos. Mais perigoso é decidir ficar ou partir sem compreender que toda decisão resulta em perdas e ganhos.
 

         A gente sabe que não é fácil, por isso dói tanto. Não somos Clarice Lispector ao escrever “O medo sempre me guiou para o que eu quero”. Às vezes, o medo nos finca onde não queríamos mais continuar. Ou, também, o medo de perder pode nos fazer ir ficando com as coisas e pessoas que realmente importam, ainda que nossas justificativas sejam outras. Há apenas duas alternativas: permanecer ou descer do vagão. Minto. Há como não pegar o trem, mas isso é deixar de viver. 

Por Elis Franco

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